No século XV, na pintura, surge uma nova realidade: os pintores começam a trabalhar para encomendadores, e já não só para a igreja. Nesse momento a arte começa a responder a necessidades provenientes de novos clientes e públicos. No design de comunicação acontece uma situação similar. Existe, geralmente, um cliente e um projeto, ao qual o designer deve responder com sucesso.
Uma das questões que se debate na profissão é a relação entre o designer e o cliente, inclua esta relação um intermediário (account) ou não. Esta relação é iniciada, na maioria dos casos, com um primeiro trabalho e com a “encomenda”, ou melhor dizendo, com o briefing. Ao receber o projeto, o designer deve tentar compreender todos os aspetos influenciadores e contextuais, tanto do trabalho como na sua relação com o cliente. É importante compreender os gostos e os hábitos do cliente, sendo que se tornar-se-á mais fácil de corresponder ao que o cliente pretende. É importante, num primeiro contato, o designer colocar todas as questões que considere pertinentes, mesmo que essas questões não correspondam à temática do projeto ou da marca em causa. Nada deve ser deixado ao acaso, assim como nada deve ser pensado como senso comum. É de máxima importância, então, que, tanto o designer como o cliente, tenham noção do que é pedido, sendo que, em muitos dos casos, o próprio cliente não sabe ao certo o que pretende.
Por mais pequeno que o trabalho seja, cabe ao designer fazê-lo crescer de modo a surpreender o cliente, superar as espectativas e assim manter o cliente para projetos posteriores e, quem sabe, maiores.
Uma das dificuldades que surge, ao longo da execução do trabalho, é a defesa da ideia. Estando a falar de algo tão abstrato, é importante fazer o cliente visualizar o que queremos transmitir no trabalho. Como tal, acaba-se por passar por um processo de “manipulação”, que, no entanto, não pode deixar de se basear numa relação de compreensão do cliente e por vezes de cedência de algumas ideias.
Muitos clientes acabam por achar que podem entrar dentro do processo criativo e tomar o controlo. O designer tem aqui duas opções: ou aceita, e aí o trabalho passa a ser negociado com o cliente dentro do possível, ou entra em rutura e então não será possível chegar-se a um consenso.
Porém, em muitos casos, o designer toma um papel de super-herói, como se tivesse toda a razão, o que não é verdade. Esta relação deve permanecer assente no princípio da cooperação: o designer deve ter a capacidade de criticar o seu trabalho, ser modesto e de ver quando está errado, ou quando é a altura de abandonar um caminho, seguindo outro, isto porque nem sempre fazemos as coisas corretamente e nem sempre temos toda a razão.
Quando um projeto é entregue a um designer, este tem a capacidade de lhe colocar um conceito, uma mensagem. É este factor que distingue um bom designer das pessoas que simplesmente sabem utilizar as ferramentas para um trabalho. Esta mensagem é importante que seja compreendida não só pelo cliente mas principalmente pelo público-alvo do trabalho. No entanto, pode acontecer que as pessoas não entendam a mensagem. Nesta situação, a falha não passa pelo cliente mas sim pela forma como o designer decidiu comunicar, independentemente de ter sido aceite ou não pelo cliente.
A compreensão da mensagem por parte do público, ou a quantidade de vendas, ou outros factores, podem contribuir para o grau de satisfação do cliente. É importante que cada designer tenha a noção de que um cliente satisfeito pode apoiar e fazer crescer uma carreira, enquanto um cliente insatisfeito pode destruí-la. Deveria passar pela cabeça de todos os criativos de que só existe uma oportunidade de um trabalho funcionar, é irreversível. Na relação com o cliente, é preferível dar liberdade ao cliente para que este diga o que desejar sobre o trabalho, consciente da importância de conquistar o cliente, sem nunca lhe permitir o controlo total que tornaria o designer numa mera ferramenta operacional. Para realizar essa conquista, é necessário unir esforços, trabalho e compreensão mútua, sendo, por vezes, necessário, tanto ao cliente com ao designer, tirarem partido dos fracassos e dos obstáculos, de modo a fortalecer novos projetos e a própria relação.
Neste aspeto, é importante salientar o facto de que é mais fácil manter um cliente do que “agarrar” um novo, sendo que é fundamental alargar o leque de clientes e não limitar a apenas a um, mesmo que este seja a nossa principal fonte de rendimento.
Segundo o autor Adrian Shaughnessy, a relação entre o designer e o cliente deve ser equiparável a um casamento, isto claro no sentido abstrato do termo, devendo tratar-se de uma união, de um trabalho de equipa, onde o cliente disponibiliza as ferramentas necessárias à criação e o designer responde ao “problema” do cliente.
Quando nos referimos a clientes “cultos” ou em educar os clientes, não podemos esquecer que a responsabilidade máxima é dos designers. Se o objectivo é obter o respeito e a credibilidade por parte dos clientes, este deve ser tratado com máxima sensibilidade, mesmo os considerados “maus clientes”, tendo em conta a visão de Adrian.
No entanto, começamos a chegar à conclusão de que não existem maus clientes, apenas uns mais fáceis de lidar do que outros, o que também depende do grau de cumplicidade desenvolvida. Para que cada um saiba o seu lugar, o cliente deve ser esclarecido sobre o seu grau de intervenção na criação e nas alterações. Se um trabalho está constantemente a ser alterado pelo cliente, então o criativo está a falhar e deve repensar todo o trabalho.
É igualmente importante que os designers compreendam que nem todos os clientes são iguais e que nem todos têm as mesmas necessidades. Poderão existir uns mais compreensivos do que outros, uns mais amigáveis, outros mais intrusivos, desligados, insistentes ... É necessário, sim, da parte do criativo mostrar vontade de adaptação e troca. Se tal acontecer, o cliente torna-se mais susceptível de ceder. Se assim não for, então, é aconselhável abandonar o cliente.
Em suma, e como conselho final, para que a relação entre o designer e o cliente funcione de uma forma positiva, é importante ter em conta que esta relação deve ser tida de igual para igual, tendo por base a confiança e o trabalho de equipa.


