10 de fev. de 2012

Designer VS Cliente

A relação entre o Designer/Account e o cliente é ainda nos dias de hoje um problema na área artística do design, isto é, a compreensão das razões pelas quais o designer cria de uma certa maneira não são na maioria das vezes compreendidas pelo cliente.

Vejamos um cliente conservador, racista ou simplesmente "limitado", contra um designer puramente criativo, avant-garde, e consciente! Quem ganha? É simples, existem duas hipóteses, ou o designer/account têm a capacidade extraordinária de explicar ao cliente porque razões o projecto levou certas directrizes ou então rapidamente vão acabar por sucumbir, e ai, o cliente ganhou!

Entenda-se esta critica como construtiva, no entanto é comum nas profissões artísticas, e visto não haver uma base científica por trás, a não compreensão da criatividade, muitas vezes não por limitação do cliente, mas sim pela incapacidade de explicar o trabalho desde a sua raiz, e também pela pouca credibilidade que nos é colocada. É importante para nós designers não termos só a capacidade de explicar o processo criativo mas também conseguir antever as reacções do público a quem se destina o trabalho.

Vou dar um exemplo, em que, por curioso o designer ganhou esta "batalha", mas o cliente e o público não entendem o porquê do conceito. Imaginemos a palavra Resiliência, alguém sonha o que é? Pois bem, o trabalho destina-se a uma grande massa de professores, e baseava-se na capa de um boletim informativo que continha no seu interior o texto: "A coragem da resiliência", a palavra significa superar dificuldades, ter força. Como resposta ao texto presente no interior do trabalho, colocou-se na capa, o titulo desse mesmo texto e uma imagem de uma mão de uma pessoa negra, com uma mão de uma criança de raça branca. Racismo ou puro desconhecimento, a imagem não foi interpretada como uma ilustração de força, de união e comunhão entre os povos do meio escolar. 

É importante que o designer tenha a capacidade de ver até que ponto o cliente e o seu público são capazes de entender a mensagem subjacente, e de que modo os horizontes do público conseguem relacionar a imagem com o tema/titulo/marca, caso este consenso não seja encontrado é pouco provável que o trabalho tenha sucesso. 

Espero ter ajudado os meus colegas e amigos a compreender esta componente de um projecto, o cliente. É uma relação difícil mas cabe-nos a nós aceitar as suas clausulas e fazermos com que o cliente compreenda sempre o nosso processo criativo.

Diogo Martins


Um comentário:

  1. O Diogo parte do princípio que o cliente é frequentemente incapaz de interpretar (conservador e limitado por natureza) e que o designer é sempre muito bom; e coloca o design como pertencendo a uma "área artística" para facilitar a sua visão.

    Seguindo esta sua ideia, se o homem comum não consegue interpretar convenientemente uma obra do Anish Kapoor ou do Salvatore Sciarrino (artes plásticas e música) é natural que também seja inepto quando toca o design. Note que para si o designer (account?) - qualquer designer (account?) - é sempre tão bom como os melhores criadores da actualidade e portanto o defeito está necessariamente do lado do cliente.

    A palavra resiliência não tem só o significado que diz ter; é uma ideia importada da física e que também está associada à ideia de resistência.
    A imagem, como qualquer imagem é plurisignificativa e não tem - nem tem que ter - só uma leitura (a que propõe). Note que não estou a dizer se é má ou boa. Afirmo apenas que eu, não conhecendo totalmente o contexto e público da revista e não tendo lido o texto e o editorial posso perfeitamente achar que a imagem transmite um sentimento de paternidade, de tacto e afecto, que pode não estar directamente relacionado com a resiliência.

    Deste modo creio que não é possível ter uma discussão saudável sobre design. Temos uma conversa entrincheirada e uma argumentação viciada em que o designer produz sempre ideias e comunicação interessante e o cliente é normalmente incapaz de a perceber. Faz lembrar a conversa dos jornalistas que se queixam sobre o facto de as pessoas lerem cada vez menos os jornais e não se questionam sobre se o que escrevem vale a pena ser lido.

    Não coloque o designer como estando acima da média, forçado a falar em calão para poder ser entendido pelo “povo”, que é quem lhe paga. O “povo” pagador e leitor não é limitado nem conservador. O designer não é ilumindado nem o portador único (ou priveligiado) da tocha da criatividade.

    Um abraço e parabéns por este seu trabalho de reflexão e análise, tão raro entre os designers e tão necessário

    Gonçalo Falcão

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